Olhos nos olhos

Entre as manias que eu tenho, uma é assistir a esses programas em que profissionais fazem uma transformação – para melhor – na vida das pessoas. Gosto também daqueles que mostram casas lindas e maneiras de viver que a gente nem imaginava que existiam, como os que decidem construir mini casas em quintais mundo afora. Adoro ver, sobretudo, os cenários e o jeito como é possível fazer com que tudo fique mais bonito, leve, colorido, às vezes com nada de dinheiro.

Minha última mania tem sido “Restaurantes em risco”, na Netflix, é claro. É assim: alguém tem um restaurante em algum lugar incrível, mas que não está dando certo, prestes a falir. Uma decoradora, um chef e um administrador de empresas (para cuidar da imagem) são chamados e fazem a transformação, deixando todo mundo feliz. Não há um que fim levou, para saber se o restaurante saiu do vermelho, mas eu gosto de acompanhar o movimento.

E, mais do que ver a mudança na cara do imóvel, no cardápio, o que ando gostando muito nesta série é que a produção está caprichando no sentido de nos lembrar, com alerta vermelho, que os donos do negócio precisam ter um olhar ao redor. Explico o que eu digo, com um exemplo: no primeiro episódio a equipe foi visitar o restaurante na Ilha de Malta, lugar paradisíaco. O dono, um jogador de futebol, apostou certo, organizando um cardápio com foco em peixes. Claro, ninguém vai a Malta para comer carne de boi.

Mas o moço decidiu, sabe-se lá por que, investir pesado em peixes importados. Agora, imaginem vocês: com todo o esplendor do Mar Mediterrâneo no quintal, ele servia aos parcos clientes peixes vindos da Noruega! O chef deu uma bronca e a primeira coisa que fez foi ir à feira, coisa que o nosso goleiro não fazia também. Todo sábado, barracas e mais barracas de peixes são vendidos a ótimos preços na esquina do restaurante. Mini anchovas, por exemplo, que eu aprendi que são mais ou menos como nossas sardinhas, podem ser compradas por centavos (de euro, claro, mas…).

Mudança do cardápio feita, a decoradora só precisou mexer em alguns pontos do salão, e o administrador saiu em campo, contando a todo mundo que ali tinha um restaurante sendo gerido por um jogador famoso. Era só o que precisava. Pelo menos a reabertura foi um sucesso.
Falar sobre mudanças de paradigma, como estão sendo propostas até pelo Papa Francisco, é falar também sobre fazer contato com o entorno. É mostrar ser possível, para os comerciantes, provocarem o desenvolvimento local. Cada um cuidando um pouco mais do seu pedaço. É do que se trata.

Gosto sempre de reler “O negócio é ser pequeno”, do economista alemão, já morto, E. F. Schumacher. Ele escreveu o livro em 1976, e logo depois sofreu um infarto fatal. Se estivesse vivo, certamente estaria sendo revisitado para contar o que conta em letras bem pequeninas em seu livro, que aqui no Brasil pode ser comprado em sebo, parou na terceira edição (79).

 Schumacher produziu ainda “A Guide for the Perplexed”, que não ganhou tradução brasileira, uma continuação do seu primeiro livro. Pretendia fazer uma trilogia, mas se foi antes.

George McRobie, que trabalhou com Schumacher, completou o trabalho e escreveu “Small is possible”, também sem tradução no Brasil, contando o que tem sido feito, por quem, para pôr em prática as ideias descritas pelo economista. Consegui comprar em sebo, é bem interessante.

Num momento como o que estamos vivendo, em que a gente se vê obrigado a olhar, perplexos, para uma situação tão macro da qual não damos conta, o melhor que me cabe – não sei a vocês – é olhar para o lado. Começo dando bom dia a vizinhos, perguntando de sua saúde, termino assistindo um bom programa de televisão que mostra o valor do contato, das relações pessoais, até para os negócios.

Não precisa dar beijinho no rosto ou apertar as mãos. Olho no olho já é tudo! 

Sobre ameliagonzalez848

Produtora de conteúdo. Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho, um cachorro.
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2 respostas para Olhos nos olhos

  1. Ciro Torres disse:

    Muito interessante Amélia González sempre nos trazendo um olhar diferenciado sobre a vida, sobre o simples tão fundamental: o equilíbrio, o sustentável, o humano em nós…

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