O caminho do ativismo ambiental desde a ‘Rio-92’ à ‘Rio+30 Cidades’ que vai acontecer em outubro

Outubro vai ser um mês intenso para os cariocas. Não bastassem as eleições, que prometem concentrar uma carga feroz de posições polarizadas, teremos na cidade a Conferência Internacional Rio+30 Cidades, que acontecerá nos dias 17, 18 e 19. O evento é, em parte, comemorativo: em 1992 sediamos a primeira Conferência Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, que se chamou Rio ou Eco-92, convocada pela ONU. Ao final daquela reunião, ficou estabelecido que haveria uma outra cúpula mundial, nos mesmos moldes, dez anos depois, o que aconteceu na cidade de Johanesburgo, na África do Sul. Em 2012, o encontro voltou a ser no Rio de Janeiro, no Riocentro, e recebeu o nome de Rio+20.

Foto de arquivo pessoal de Severn Suzuki divulgada na edição do Razão Social de abril de 2012, pouco antes de acontecer a Rio+20, em reportagem de Camila Nobrega

Já se passaram dez anos, portanto. (O tempo passa sem pedir licença, não acham?). E na quarta-feira, dia 30 de março, estive no Museu do Amanhã, a convite da Prefeitura do Rio, para o lançamento da Conferência atual, que agrega o nome Cidades no título.

A plateia do auditório do Museu estava bem cheia, e era possível perceber que a grande maioria dos presentes representava organizações da sociedade civil. Uma pessoa entregou ao prefeito o prêmio de inimigo da natureza. O prêmio foi recebido com ironia por Paes, que assegurou que já estava “com saudades desses prêmios”.

Por que Paes mereceu a premiação? Talvez a ferida causada pela remoção de 340 árvores de um terreno na Tijuca para construir um prédio não esteja fechada, embora tenha acontecido no ano passado. A gestão passada de Paes foi marcada também pela construção totalmente inadequada de uma ciclovia na orla, que caiu duas vezes e causou a morte de um homem. Atualmente, Paes acumula ainda algumas agruras ambientais, como a falta de árvores urbanas: a Prefeitura tira muitas árvores, mas nada costuma ser plantado em seu lugar.

Enfim, sempre haverá motivos para se criticar autoridades governamentais versus descaso com o meio ambiente, e sempre haverá quem menospreze tais motivos, tanto quanto quem os escreva com cores fortes.  Para quem está nessa estrada há duas décadas, como eu, não é mais novidade.

Importante, então, é aproveitar esse tempo de comemoração para transformar a efeméride em uma data produtiva, que possa alimentar o debate sobre meio ambiente. Seria injusto dizer que nada foi feito de trinta anos – data da primeira Rio – até agora. Mas, considerando os últimos relatórios lançados pelos cientistas do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC na sigla em inglês), muito ainda precisa ser feito pelo meio ambiente. E, considerando os últimos relatórios que a ONG Oxfam lança anualmente, nos quais a desigualdade social está sempre em ascensão, o desenvolvimento continua privilegiando apenas alguns.

A Conferência Rio+30 Cidades terá tudo aquilo que já estamos habituados a ver em outras conferências do Meio Ambiente. A diferença geográfica desta para a Rio+20 é para melhor: enquanto há dez anos os encontros ficaram concentrados no Riocentro, ou seja, um local de difícil acesso, desta vez o Museu do Amanhã, no Porto, e o Museu de Arte do Rio (MAR), que fica em frente, serão os locais mais utilizados. Haverá também eventos paralelos em três armazéns portuários. O encontro das organizações da sociedade civil, que costuma ser palco para eventos culturais, deve acontecer na Praça Mauá. É bom para estudantes, por exemplo, que terão mais facilidade para chegar.

Outra coisa boa: de forma simultânea, vai acontecer o 8º Fórum Global do Pacto de Milão, que debaterá as políticas locais para o aumento da segurança alimentar. Tema indispensável. Ainda não foi divulgada a lista das celebridades estrangeiras aguardadas, mas certamente vão agitar o debate.

Aqui, é importante fazer uma distinção: há diferença entre Rio-92 e COP (Conferência das Partes), embora ambas sejam convocadas pelas Nações Unidas. A Rio-92 fala sobre desenvolvimento e meio ambiente, enquanto a COP foca nas mudanças climáticas, nos efeitos provocados pelos gases poluentes que, como se sabe, têm sido emitidos cada vez mais e mais desde a Revolução Industrial. Resultado de desmatamento e da industrialização acelerada.

Os organizadores do evento prometem que a agenda da Rio+30 cidades será focada no desafio de se tentar diminuir as desigualdades sociais. A premissa, dita por Paes, é que só haverá crescimento econômico se a desigualdade diminuir. Esperamos que o documento final trace novas ideias de políticas públicas eficazes nesse sentido.

Haverá também, quase certamente, um ou uma personagem/símbolo da geração mais nova para mandar um recado contundente que será replicado milhares de vezes até… bem, até cansar. Sem resultado prático.

Na Rio-92, essa personagem foi Severn Suzuki. Lembro-me muito bem dela porque, na época, eu trabalhava como subeditora da Editoria Rio do jornal O Globo, ou seja, fiquei nos bastidores, editando páginas que iriam para as bancas no dia seguinte. Ainda era assim que funcionava o jornal. A estudante canadense Severn, na época, tinha 12 anos. Meio descabelada e com um vestido simples, ela subiu ao púlpito reservado às autoridades, deu seu recado: pediu aos líderes que fizessem algo para reduzir o impacto ambiental, diminuir desigualdades e erradicar a fome.  E ficou famosa.

Dez anos depois, já como editora do caderno “Razão Social”, dei à repórter Camila Nóbrega a tarefa de encontrar Severn Suzuki para a nossa edição especial da Rio+20. Camila entrevistou a canadense, que já virara uma bióloga, tinha um filho e continuava uma ativista ambiental (veja aqui a reportagem).

Busquei, hoje, mais informações sobre Severn. E descobri que a frase que ela fez ecoar – “Eu sou apenas uma criança e não tenho todas as soluções” – acabou virando o título de um filme de animação – “Only a child” – baseado em seu discurso (veja aqui o trailer). Ou seja: a menina que calou os líderes da Rio-92 continua lutando por melhorias no meio ambiente.

Vamos aguardar a Rio+30. E, só para registro, acho bom que entre o tema “cidades” no título. Amplia o debate para que se possa pensar numa urbanização mais inclusiva e voltada ao bem viver.

Sobre ameliagonzalez848

Produtora de conteúdo. Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho, um cachorro.
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