Homeopatia ou alopatia? O que importa é a relação de confiança entre médico e paciente

A primeira viagem que fiz ao Arquipélago do Bailique, que fica no Amapá, quase na fronteira com a Guiana Francesa e a 200km da capital Macapá, foi em 2014. Naveguei pelo Amazonas, dormi algumas noites numa rede instalada num barco, e vivi dias mais intensos do que quando peguei dois aviões e desembarquei em Shangai, na China, anos antes. Conheci o Brasil profundo, percebi suas agruras,  mas sobretudo aprendi a respeitar a capacidade que nós, humanos, temos de transformar e criar.

Eu estava ali, como repórter e, na época, colunista do site G1, para registrar o processo de produção do primeiro Protocolo Comunitário brasileiro. Na época, o Arquipélago tinha cerca de onze mil pessoas (hoje são cerca de treze mil) que, sob orientação do Grupo de Trabalho Amazônico (GTA), estavam prestes a determinar limites de acesso a recursos genéticos, uma das exigências do Tratado Internacional de Nagoya, que o Brasil assinou em 2011, e só ratificou no ano passado, dez anos depois.

Ouvi muitas histórias, claro. Para fechar o pensamento que quero trazer hoje, pinço o depoimento da parteira Elza Pereira, inesquecível para mim. Mulher alta, bonita, Elza foi a  primeira a falar no último dia do Encontro das comunidades do Bailique porque precisava seguir viagem mais cedo para aproveitar a maré. Elza morava numa das ilhas mais distantes, perto mesmo da Guiana Francesa, explicando-se assim o fato de falar também o francês fluentemente.

Elza Pereira no encontro, no Bailique, para debater sobre acesso a recursos genéticos. Foto Amelia Gonzalez, 2014

 Elza encantou a plateia com uma fala assertiva. Afirmou conhecer as barrigas de mulheres grávidas e perceber, no olhar, sehá algo errado com a gravidez. E lamentou o fato de que seus remédios, considerados caseiros, não terem valor algum para a medicina tradicional:

‘Hoje tem Posto de Saúde na minha comunidade, mas lá não tem os remédios que a gente sabe que dá resultado. Casca de andiroba contra diabetes; folha de chicória para dor de cabeça; argila contra dor de dente… Por que a gente não pode dar esses remédios?”

A pergunta de Elza ecoou, ganhou aplausos das pessoas que estavam ali corroborando seus pensamentos. O saber tradicional dos povos das florestas não pode, não deve, ser menosprezado. Nem pela Ciência.

Minha memória é uma peça. Os pensamentos vão chegando e costurando, formando às vezes o mosaico que eu estava buscando. Na última semana, circulou um artigo da cientista Natalia Pasternak em que ela afirma que a homeopatia é nada. Adepta da medicina com base científica, de quebra, em seu artigo, ela menospreza o saber tradicional. Daí eu ter me lembrado de dona Elza, a parteira.

Meu instinto de jornalista funcionou. E além de me lembrar de Elza, quando li o artigo busquei saber a opinião de meu médico, homeopata e acupunturista, Mauricio Tatar (autor do livro “Cuidar de Si”, escrito por mim). Mandei-lhe o artigo, e achei que ouviria dele um argumento radical. Mas me surpreendi:

“Se fosse em outro momento, eu responderia com irritação. Mas aprendi que não vale a pena, que não é preciso convencer ninguém. O que importa mesmo é a relação do médico com o paciente. E o que precisamos, de fato, hoje, é melhorar essa relação. Não se pode substituir o médico por uma máquina, e esta é a tendência”.

Mauricio Tatar contou-me sua experiência, assim que se formou médico, no Instituto Weizman de Ciência, em Israel. Ali ele tinha todas as ferramentas necessárias para fazer pesquisa. Estudou, escreveu o projeto, saiu de lá e voltou para o Brasil com a certeza de que o que mais queria era lidar com pessoas, não com bichos de laboratório. Por isso buscou a homeopatia, especialidade médica que, segundo ele, dá uma atenção especial à história das pessoas.

“Precisamos restabelecer essa relação, como existia antigamente, o médico de família. Acabou sendo substituída por pílulas salvadoras, isso não é bom. A homeopatia não nega os avanços da Ciência para tratar as pessoas, mas insiste na relação com o médico. Até porque o Brasil tem muita gente que não tem acesso a exames, remédios sofisticados. Como elas se tratam?”, pergunta o médico.

Tatar conta ter observado em seu consultório, não poucas vezes, que o paciente consegue se sentir melhor somente ao contar sua história e ser ouvido com paciência e carinho.

“Eles falam: ‘estava com uma dor de cabeça ali na sala de espera, mas passou durante a consulta’. Isto não é milagre, é a atenção que eu dou, as pessoas precisam disso. E mais: quando o paciente confia no médico, é mais fácil que o medicamento dê resultado”.

Mas Mauricio entende que hoje as pessoas têm pressa. Querem se livrar logo dos sintomas. Por isso usam medicamentos que prometem mais rapidez. Por isso usam tantos medicamentos: “Se a dor não passa com 5mg, então aumenta-se a dose”, disse ele.

Quanto mais eu penso sobre tudo isto, mais encontro similaridade com as questões climáticas, meu foco de estudo. Mais especificamente, com a complexidade que envolve a relação do homem com a natureza, o que vem causando mais intensidade dos eventos extremos. Não temos tido a escuta necessária, o carinho necessário com nosso entorno.

 Estamos extraindo do meio ambiente mais do que necessitamos, justamente porque temos pressa e queremos infalibilidade, conforto, segurança, riqueza, saúde etc, etc. Sem levar em conta que o tempo da natureza é outro, que seus bens são finitos. Sem considerar, nem mesmo respeitar, o conhecimento adquirido pelos povos que acatam este tempo e, por isso mesmo, têm uma relação mais reverente com a natureza.

Talvez seja este o caminho que precisamos trilhar.

No livro “One planet”, uma espécie de súmula do que foi debatido na primeira Conferência Mundial do Meio Ambiente convocada pela ONU, há exatos 50 anos, em Estocolmo, os autores Barbara Ward e René Dubos já traçam aquele como um momento crítico do planeta. O debate da época, nos países ricos, girava em torno da intervenção do homem sobre a Terra e sobre a necessidade de se preservar uma unidade e, ao mesmo tempo, respeitar tradições, crenças e diversidade.

A tarefa deixada pela ONU para os pouco mais de noventa países que participaram da reunião era definir o que deve ser feito para manter o planeta Terra um lugar adequado para a vida humana não apenas naquela época, mas também para as gerações futuras.

Ainda estamos devendo, como vemos frequentemente.

Sobre ameliagonzalez848

Produtora de conteúdo. Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho, um cachorro.
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2 respostas para Homeopatia ou alopatia? O que importa é a relação de confiança entre médico e paciente

  1. Lucila Teixeira Soares disse:

    Viva a escuta, o olhar, a empatia! E viva o bom senso, outro artigo em falta no mundo…

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