Uma breve história sobre o microcrédito no mundo

Entre as medidas do governo federal para tentar aquecer a economia e ganhar a reeleição está a concessão do crédito consignado para as 17,5 milhões de pessoas que recebem R$ 400,00 como Auxílio para sobreviverem.  A medida já tinha sido proposta anteriormente, mas a Câmara dos Deputados vetara, por julgar polêmico o endividamento das famílias de tão baixa renda.

A notícia é, de fato, polêmica. E inspira reflexões. No meu caso, lembrei-me de rever o início do microcrédito, lançado pelo economista Muhammad Yunus em Bangladesh em 1977, portanto há quase meio século. Há uma diferença, claro, entre empréstimo consignado e o microcrédito. Mas ambos lidam com pouco dinheiro para os muito pobres. E, neste sentido, são muitas as semelhanças.

Tanto que não seria demais pensar que os técnicos do governo que estão pensando a este respeito poderiam visitar os livros e a história de Yunus. E tirar de sua experiência algum proveito para ajudar, realmente, os que necessitam de dinheiro.

Yunus conta, em seu livro “Banqueiro dos pobres” (Ed. Atica), que escreveu com a ajuda de Alan Jolis em 2004), como tudo começou. Foi na aldeia Jobra, em Bangladesh, país que acabara de viver um período de fome violenta. Já como pesquisador e professor da Universidade de economia, ele resolveu visitar o local para conversar com as pessoas. E reproduz o diálogo com uma artesã:

Muhammad Yunus em palestra no balcão da Ação da Cidadania em maio de 2013. Foto Amelia Gonzalez

– Como a senhora se chama?

– Sufia Begum

– O bambu é da senhora?

– Sim

– Como a senhora o obtém?

– Eu o compro

– Quanto ele custa?

– Cinco takas (na época, representava 22 cents de dólar)

– A senhora tem esses cinco takas?

– Não, eu peço emprestado dos paikars

– Os intermediários? O que a senhora combina com eles?

– Eu preciso vender para eles meus tamboretes de bambu no fim do dia para devolver o dinheiro emprestado. O que sobra é meu lucro

– Por quanto a senhora vende o tamborete?

– Cinco takas e 50 paisas.

– Então a senhora tem um lucro de 50 paisas? (na época, representava 2 cents de dólar)

– Mas a senhora não poderia tomar emprestado o dinheiro e comprar os materiais?

– Poderia, mas me cobrariam um absurdo. E as pessoas que apelam para eles empobrecem mais depressa ainda

– Com quanto o agiota fica?

– Depende. Às vezes ele fica com dez por cento por semana. Eu mesma tenho um vizinho que paga dez por cento por dia!

– E é tudo o que a senhora ganha fabricando esses belos tamboretes de bambu, 50 paisas?

– É.

O então jovem Yunus, que hoje tem 81 anos, decidiu dar dinheiro para Sufia e suas vizinhas poderem se livrar do intermediário. Isto foi possível com US$ 27. E foi ali que nasceu o Grameen Bank, que hoje tem 2.565 agências, presta serviços em mais de 81 mil aldeias, cobrindo 97% do total da área rural de Bangladesh, ainda um país muito pobre. Um detalhe importante: os empréstimos são oferecidos para as mulheres, e os funcionários do Grameen Bank são capacitados a irem aos locais, conversar com as pessoas. A preferência é oferecer o benefício a grupos de trabalhadores, a juros que vão de 12 a 16% ao ano.

E mais: segundo Yunus, o empréstimo deve ser dado, preferencialmente, a um grupo, estimulando que o dinheiro seja usado para comprar algo que possa ser vendido, por exemplo. O grupo dá uma sensação de segurança. O Grameen Bank criou uma forma de pagamento diária, mais fácil de controlar. O tomador do empréstimo se sente, assim, estimulado porque, mesmo pagando centavos, consegue ver outros centavos ficando em seu bolso.

No caso do Brasil, o valor da prestação será retirado do Auxílio no mês seguinte, o que pode ser muito difícil para os tomadores. É preciso ter campanhas avisando sobre isso o tempo todo.

Estamos falando de pouco dinheiro chegando nas mãos de quem precisa muito. E de quem está, há muito tempo, excluído do sistema. A situação é delicada e não pode ficar nas mãos de bancos que, por motivos óbvios, terão sempre, por princípio, que buscar o lucro. E somente o lucro.

*Este texto foi originalmente publicado no site da Escola Monte Alegre

Sobre ameliagonzalez848

Produtora de conteúdo. Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho, um cachorro.
Esse post foi publicado em Uncategorized. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s