Dia Mundial da Reciclagem: bom gatilho para reflexão

Dia 17 de maio foi o Dia Mundial da Reciclagem. A efeméride foi instituída pela Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco). A despeito da crítica que se possa fazer com relação à serventia de se criar uma data para celebrar a reciclagem, pode valer como uma chance de suscitar reflexões. É o que nos interessa aqui.

A foto é de Custodio Coimbra, em reportagem feita na Baía de Guanabara para relatar o trabalho de pescadores que perderam condições de viver de sua pesca por causa do acúmulo de lixo. Eles agora vivem de ‘pescar’ lixo, conforme mostra a reportagem que foi publicada no Globo do dia 22

Minha primeira observação é crítica. Como atestam dez entre dez ambientalistas, é preciso sempre lembrar que qualquer objeto reciclado também vira lixo. Ou seja, a reciclagem apenas adia a ida do plástico, por exemplo, para o oceano. Mesmo que ele vá em novo formato, ainda assim ele irá.

Segundo a ONG Ocean Conservancy , cerca de 80% do lixo despejado nas águas resultam de atividades realizadas na terra, tanto produzido pelas indústrias quanto resultado de despejo de esgotos. O restante é proveniente da economia marítima, como a pesca e o transporte. Anualmente, cerca de 13 toneladas de lixo são despejadas no mar.

Portanto, para além da reciclagem, a questão do lixo – tanto nos mares quanto em terra – exige uma atitude realmente mais transformadora por parte dos humanos. É preciso parar de acumular coisas. E isto, para muitos, não é nada fácil.

O historiador Erick Hobsbwan lembra em sua admirável obra “Era dos Extremos”, que de 1947 a 1973 o mundo viveu o que ele chama de Era de ouro. Um espantoso período, lembra Hobsbawn, que “assinalou o fim dos sete ou oito milênios de história humana iniciada com a revolução da agricultura na Idade da Pedra, longa era em que a maioria esmagadora da raça humana vivia plantando alimentos e pastoreando rebanhos”. Na era do ouro, a ordem foi aquecer a combalida economia – por conta da II Guerra – instigando o consumo. Ir às compras era um programa, como ainda hoje é para muitos de nós.

E aqui estamos nós. De novo numa Guerra, que alguns já chamam de Terceira, mas agora sem muita chance de consumir, pelo menos no Brasil, porque está tudo muito caro e a inflação corrói o salário. No entanto, é só decidir organizar aquele armário-cônsul, onde se joga todos os objetos e roupas para “pensar depois” o que fazer com eles, para perceber como nos tornamos acumuladores.

Foto de Custodio Coimbra que embalou a reportagem sobre lixo. Um sofá na Lagoa da Tijuca, Zona Oeste do Rio. Agora, eu me pergunto: não há política pública para ajudar essa pessoa a destinar seu sofá?

Annie Leonard fez um bruta sucesso em 2010 quando lançou o vídeo “A História das Coisas”, depois transformado em livro editado aqui no Brasil pela Ed. Zahar. Ela é ambientalista, foi ensinada desde cedo a ter carinho pelas coisas que compra e, como norte-americana, vive num país altamente consumista. Mas arregaçou as mangas para contar a história por trás das coisas que nos cercam e que adquirimos, mesmo quando há volatilidade financeira mundial. E mesmo quando somos alertados de que o planeta já está exaurido de seus bens naturais, mais do que pode aguentar.

“O problema básico não é o comportamento individual e as más escolhas de estilo de vida, mas o sistema falho – a máquina fatal do extrair-fazer-descartar… Convido o cidadão que existe em você a falar mais alto do que o consumidor que também existe em você, e a iniciar um diálogo rico e aberto com a sua comunidade”, escreve ela.

No meu caso, estou justamente na fase de me surpreender com a quantidade de lençóis e fronhas que acumulei durante esses anos. Sim, estou tentando organizar o armário-põe-na-cônsul aqui de casa, e começo a refletir, com a ajuda de Annie Leonard.

A ambientalista está longe de ser radical. Em alguns momentos, como sói acontecer, ela enaltece as boas qualidades da reciclagem, embora sempre alerte para a necessidade de se diminuir o consumo (por consequência, a produção) das coisas. A reciclagem de papel, por exemplo, tem levado a uma boa mudança, inclusive no modo de produção. Hoje já se recupera mais papel descartado através do processo de reciclagem do que há dez anos.

“Estamos perto de fechar o ciclo e produzir papel a partir de papel, não de árvores”, conta ela.

Esta é uma boa notícia.

Por outro lado, em outro trecho do livro, a autora cita o vinil, o PVC (cloreto de polivinila), muito perigoso em todos os estágios da vida. Presente em sapatos, bolsas, capas e botas, aventais, toalhas de mesa, cortinas de banheiro, mobília de varandas e mangueiras, recipientes e embalagens de alimentos, escorredores de louça, esquadrias e tubos, além de marcar presença também em sondas usadas pela medicina, artigos de escritório, brinquedos e roupas de crianças, ele pode fazer um tremendo mal ao nosso organismo.

No caso do PVC, o recurso da reciclagem não é solução. “Apenas aumenta o problema, porque reciclar um veneno faz perpetuar o perigo. A única resposta é parar de produzir PVC e tirar o existente da circulação”, escreve Annie Leonard.

O perigo é tão grande que alguns governos já proibiram ou obrigaram a restrição de produtos de plástico em seus territórios. União Europeia, Japão e México estão entre eles.

É uma das soluções, não a única, evidentemente. Não se pode pôr sobre os ombros do cidadão comum – que as corporações gostam de chamar de consumidor – a total responsabilidade de parar de consumir. E aqui estou focando especificamente no plástico, mas é possível pensar dessa forma com outros produtos também.

A ideia é que haja políticas públicas, que as empresas obedeçam a tal regulação e que o cidadão comum seja bem-informado. A reciclagem, então, funcionaria como uma espécie de cereja do bolo, não como o condão mágico que vai nos livrar do mal maior. Lembrando sempre que o mal maior são os eventos extremos que atingem muitos cidadãos, ceifam vidas e desorganizam economias.

Não são tempos fáceis. Mas as efemérides serão sempre bons gatilhos para reflexão.

Sobre ameliagonzalez848

Produtora de conteúdo. Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho, um cachorro.
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