Sobre alimentos orgânicos e a fome no mundo

Levei um susto, ontem pela manhã, quando li o artigo publicado no “O Globo” sobre a fome no mundo. Já na primeira frase, quando diz que “uma crise alimentar está se aproximando”, o autor, um dinamarquês, se equivoca.  Basta fazer uma pesquisa rápida na internet para se descobrir um número que ele nos poupou de informar. Dados recentes de um relatório das ONGs Ação Agrária Alemã (Welthungerhilfe, em alemão) e Concern Worldwide, publicado no ano passado, mostram que o número de pessoas que passam fome, mundialmente, está na casa dos 800 milhões.

Mamão comprado hoje, no ônibus-sacolão, por R$ 4,90. Não é orgânico, mas é caro, o que inviabiliza o acesso aos mais pobres. Foto: Amelia Gonzalez

 Isto já não é uma crise instalada?

Na sequência, o dinamarquês escreve verdades. Sim, a epidemia, a guerra e o impacto causado pelas mudanças climáticas são fatores que colaboram para fazer crescer este número. Outro relatório recente, publicado pela Oxfam, mostrou que o número de pessoas vivendo em condições de fome estrutural aumentou cinco vezes desde o início da pandemia. Ou seja: desde a pandemia, no mínimo mais 520 mil pessoas foram jogadas no time dos famintos.

Mas o artigo prossegue. E, sem pedir licença, o autor Bjorn Lomborg decide declarar que “a agricultura orgânica não tem condições de alimentar o mundo”.  Como se, em algum momento, esta fosse a missão dos agricultores que produzem sem aditivos químicos em suas terras.

Lomborg, que faz parte de um grupo, o Consenso de Copenhague, está resgatando a Revolução Verde. Para ele, o incremento da expansão de fertilizantes, de pesticidas, a modificação genética das sementes, é o caminho para se conseguir acabar com a fome no mundo. Rachel Carson, a bióloga que nos anos 60 denunciou o mal que tais produtos – na época, o foco era o DDT – causam à saúde de qualquer ser vivo do planeta em “Primavera silenciosa”, deve ter se virado no túmulo.

Sou vegana, compro produtos orgânicos quando o preço deles está razoável. Já participei de várias mesas de debate sobre sustentabilidade que incluíam a segurança alimentar na discussão. E nunca ouvi qualquer produtor orgânico se imbuir da tarefa de acabar com a fome no mundo. Até porque essa é uma questão muito mais profunda.

Impossível trazer aqui todos os pontos necessários ao debate. Pincei alguns autores que podem ajudar a ampliar o pensamento. “A Fome no Mundo Explicada a Meu Filho” (Ed. Vozes), escrito por Jean Ziegler há duas décadas, por exemplo, traz dados que merecem atenção. Jean Ziegler é professor de Sociologia e ex-vice-presidente do Comitê Consultivo para os Direitos Humanos das Nações Unidas, entre outros atributos. Escreve ele:

“Em 1990, havia 822 milhões de pessoas severamente afetadas pelo flagelo da fome”.

Ou seja: o quadro não mudou muito. O número de flagelados vai aumentar, sim, por vários motivos.  Por causa da epidemia;  por causa dessa guerra absurda, que vai gastar 813 bilhões de dólares, em armamentos pesados num mundo com pessoas passando por tantas privações; por conta das mudanças climáticas, que têm causado seca e tempestades devastadoras. Mas, por enquanto, estamos quase no mesmo patamar do fim do século passado, quando ainda éramos cerca de 6 bilhões no mundo.

Hora de trazer Ladislau Dowbor, economista, escritor, ex-conselheiro técnico das Nações Unidas, cujo site disponibiliza livros que merecem ser lidos.  Sobre a fome, Dowbor escreve:

“Hoje temos 820 milhões de pessoas passando fome, quando há comida sobrando por toda parte: só de grãos o mundo produz mais de um quilo por dia por pessoa, sendo que o Brasil produz 3,5 kg, isso sem contar tubérculos, frutas, legumes etc. Não há nenhuma razão econômica ou técnica para faltar alimento para ninguém. O mundo produz, com um PIB da ordem de 85 trilhões por ano, o equivalente a 18 mil reais de bens e serviços por mês, por família de quatro pessoas. No Brasil, o PIB de 2019, 7,3 trilhões de reais, equivale a 11 mil reais por mês por família de quatro pessoas. É dizer que no mundo não faltam recursos. Nosso problema não é econômico, é de organização política e social”.

Em resumo: o problema da fome no mundo não é de falta de alimento, e isto põe em xeque – para dizer o mínimo – inclusive a necessidade de tantos fertilizantes e agrotóxicos. O problema é a distribuição de alimentos. Esta dedução lógica faltou ao raciocínio do autor dinamarquês.

Poderia trazer outros tantos autores para clarear ainda mais o debate. Mas vou me restringir para não ser prolixa.

Para fechar, recomendo a leitura desse artigo publicado na Revista Galileu, que reflete também amplamente sobre a fome no Brasil. A questão, diz o artigo, não é de falta de alimentos, mas de falta de vontade política de acabar com a fome. Nos governos sociais, mais claramente no governo do presidente Lula, tais políticas foram abundantes e eficazes.

Sobre ameliagonzalez848

Produtora de conteúdo. Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho, um cachorro.
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