O que é uma cidade sustentável?

Estive na China em 2008. Viagem rápida, porque precisava voltar logo para fechar o “Razão Social”, caderno que editei no Globo durante nove anos. Aceitei o convite de uma empresa porque achei muito interessante a proposta: um fórum para debater sobre cidades sustentáveis.

Eu nunca tinha ouvido essa expressão. Foram dois dias intensos, de aulas e palestras, num campus universitário imenso (aliás, tudo é imenso na China…). Durante os intervalos para o café, gravador em punho, fui fazendo uma única pergunta aos painelistas: “O que é uma cidade sustentável”?

Enrique Peñalosa, ex-prefeito de Bogotá, conhecido por ter feito uma boa revolução na cidade à época em que a administrou, deu-me uma explicação que jamais esqueci. Ele falou que as cidades sustentáveis são aquelas que não assustam as pessoas. Nem com o tamanho dos prédios, nem com a quantidade de carros nas ruas, tampouco com a falta de espaço para se andar nas calçadas.

Ontem, durante o evento “Cidades Verdes”, organizado pelo Ondazul no auditório da Firjan, trabalhei nos bastidores e fiquei responsável por fazer breves entrevistas com painelistas. Lembrei-me do encontro na China e fiz a mesma pergunta para todos.

Eu no trabalho, no auditorio da Firjan durante o Seminário Cidades Verdes. Foto de Andre Balocco

Fiquei feliz quando Ilan Cuperstein, diretor da C40 Cities para a América Latina, em sua resposta à minha pergunta, citou Peñalosa. É tão bom quando boas informações circulam e a gente ajuda que isso aconteça.

Atributos como “digna”, “inclusiva”, “agradável”, foram alguns dos indicados pelos outros especialistas que entrevistei ontem para classificar o que seria uma cidade sustentável. Gosto dos debates que servem para clarear as ideias, ampliar pensamentos. Isto agrega, não sou de desperdiçar pensamentos, como diria Hannah Arendt. Corro léguas de dogmas e verdades que trazem a “velha opinião formada sobre tudo” (obrigada Raul!).

O evento acolheu opiniões do poder público, do setor privado, da academia, de organizações da sociedade civil. E, como se exige de uma reunião com tamanha diversidade, opiniões contrárias enriqueceram a plateia, fornecendo insumo para a plateia sair dali com caraminholas a expandir suas reflexões.

Somos muitas, seremos ainda mais pessoas que buscam morar em grandes cidades. Segundo relatório da ONU-Habitat lançado semana passada, a população urbana dobrou, de 25% para 50%, de 1950 a 2020. A aceleração será mais lenta para os próximos 50 anos, e a previsão é de que cheguemos a 58% até 2070. Em países de baixa renda, o número de cidades aumentará em 76% nos próximos 50 anos e é onde vai crescer a área urbana. Mais cidades, mais pessoas apinhadas: a densidade vai aumentar em 141% nos países pobres.

Por isto vai ser preciso, segundo Aspásia Camargo, uma das painelistas do Seminário, construir cidades inteligentes, ou seja, “cidades verdes, azuis, libertárias e justas”.  O Rio de Janeiro tem pressa para se tornar assim, acrescentou a ambientalista. E eu concordo. Mas antevejo um caminho muito longo até lá, e precisaremos de administrações mais focadas neste propósito.

Fiquei interessada em conhecer um pouco melhor, na prática, a teoria apresentada pelo secretário Luciano Paez, de Niterói, que se apresenta como o primeiro secretário de mudanças climáticas do Brasil. Criou um Painel de Mudanças Climáticas, agregou pessoas que sempre estudaram o tema – como o ativista ambiental e economista Sergio Besserman –  e anunciou duas medidas simpáticas: aumento expressivo da quantidade de bicicletas na rua principal do Centro da cidade, a compra de ônibus elétricos e a redução do preço da passagem.

Considerando que Niterói é uma cidade com cerca de 515 mil habitantes, é claro que não se compara aos desafios (palavra que as corporações adoram) de uma cidade como o Rio, que tem seis milhões de pessoas. Por outro lado, uma administração municipal de mega cidade precisa estar, cada vez mais, preparada para o gigantismo dos problemas.

Tratamento de esgoto; distribuição de água; transporte humano e acessível; uso consciente de energia e o enfrentamento às mudanças climáticas foram temas abordados no encontro. E eu incluo nosso papel, de cidadãos, nisso tudo. Não gosto da ideia de culpar as vítimas no caso de assuntos que não depende de nós resolvermos, como por exemplo a baixa ocupação dos ônibus na cidade carioca. Mas ando pensando, enquanto caminho pelas ruas, que está faltando respeito.

Só isto: respeito. De humanos para humanos, de humanos para o pouco de verde que ainda nos resta nas cidades, de humanos para animais, para o espaço público, para o patrimônio público. Não vai resolver todos os problemas, mas se tiver respeito alguma coisa muda para melhor.

Assim, respondo eu a minha pergunta. Cidades sustentáveis, para mim, são exatamente tudo aquilo a que se referiu Peñalosa. E mais: com respeito.

Sobre ameliagonzalez848

Produtora de conteúdo. Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho, um cachorro.
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