Evento sobre água leva esperança de mudança no cenário dos cariocas

“É preciso ter esperança/

Mas ter esperança do verbo/

Esperançar/

Porque tem gente que

Tem esperança do ver esperar/

E esperança do verbo esperar/

Não é esperança/

É espera

Paulo Freire, o grande, o super educador e pensador foi muito feliz quando criou este verbo, esperançar. É no sentido de criar movimento, não de ser passivo. Cidadãos que esperançam são cidadãos que não perderam a motivação, a vontade de ver mudanças. E acreditam.

Hoje pela manhã, o verbo esperançar foi usado muitas vezes no painel de conversa “Cenário de Saneamento do Estado do Rio após a Concessão” que aconteceu no evento Fits 2022 Água. E os participantes, quatro presidentes de empresas, cada um à sua maneira, estavam nutrindo a plateia   com vontade de esperançar. E bem que estamos precisando disto…

Compartilho com vocês alguns pensamentos motivadores que ouvimos durante o evento:

Vamos ver a Baía da Guanabara limpa de novo! Vamos ver o Interceptor Oceânico limpo depois de anos e anos… Vamos ter empregos para jovens que se especializarem na questão de saneamento… Vamos ter três empresas trabalhando em parceria com a Cedae para limpar os esgotos, as estações de tratamento, fazer dragagem em lagoas e rios. Vamos poder tomar banho na Praia de Botafogo! O  Rio Banana Podre vai deixar de lado este desonroso apelido.

“O que está sendo feito agora, nunca foi feito. A aposta é possível de ser feita. Estamos fazendo o que é preciso fazer para alcançar nossa meta. Sou um realista esperançoso”, disse o atual presidente da Cedae Leonardo Soares.

Estavam na conversa, além de Soares, o presidente da Águas do Rio, Alexandre Bianchini; o CEO da concessionária Rio+Saneamento, Leonardo Riguetto e o diretor-geral da Iguá no Rio de Janeiro, Eduardo Dantas.

A crise financeira que assolou o Estado e a Cedae nos anos 17/18 uniu os quatro executivos. A empresa não teria condições de seguir se não recebesse ajuda, e o Estado não conseguia ajudar.

“A Cedae reduziu despesas e concedeu serviços de distribuição de água e captação e tratamento de esgoto a outras empresas”, diz o histórico da empresa.

Que assim seja. Que dê certo. Vamos esperançar. Estamos precisando, o cenário é triste.

Dados do ano passado veiculados pelo Conselho Regional dos Técnicos Industriais do Estado do Rio de Janeiro mostram que 7,5% da população do Estado ainda não recebem água tratada; 34,2% da população não têm acesso à rede de coleta de esgotos e apenas 35,4% do esgoto gerado é tratado antes do descarte, ou seja, bem mais da metade do esgoto volta ao rio.

O conceito da sustentabilidade percorreu as falas dos quatro executivos do painel. E, como se sabe, este conceito, em sua essência, significa um desenvolvimento que respeite, em última instância, preservar a saúde humana. Aqui vale lembrar que um relatório da Organização Mundial de Saúde publicado no ano passado mostrou que “as mudanças no tempo e no clima estão ameaçando a segurança alimentar e aumentando as doenças transmitidas por alimentos, água e vetores”.

 Bianchini lembrou que o primeiro ser humano morreu de doença provocada por falta de saneamento.

“Temos residências sem banheiro em locais a 500 metros de Ipanema, um dos bairros mais caros. Já estamos conseguindo mudar este quadro na Barreira do Vasco, onde o esgoto entupia e vazava. Fizemos o Programa Afluentes, contratamos 3,5 mil pessoas da comunidade. Vamos dar dignidade àquelas pessoas, muitas que nunca tiveram um banheiro em casa. Não existe chance de dar errado, vai dar certo’, disse o presidente da Águas do Rio, que arrematou dois blocos da Cedae em abril de 2021.

O Marco Legal do Saneamento, lei federal promulgada em 2020 e que regulamenta o saneamento básico no Brasil, tem uma meta muito ousada: chegar a 2035 com 90% do esgoto tratado. Muitos desafios.

Leonardo Riguetto, da Rio+Saneamento, que pertence ao mesmo grupo da Águas do Brasil, está esperançoso. E realista.

“Temos vagas de emprego no saneamento. Precisamos pensar no desenvolvimento social também, não apenas no econômico. Vamos investir R$ 4,7 bilhões, abril cinco mil empregos e sanear este estado”, disse ele.

Palavras que alimentaram de esperança a plateia. Eduardo Dantas corroborou. Sua empresa assumiu em 7 de fevereiro os serviços de saneamento em dois municípios fluminenses – Paty do Alferes e Miguel Pereira – e nos bairros da capital que integram a Zona Oeste.

“Emprego e renda vão vir na esteira, mas vamos levar dignidade a todas os cidadãos”, garantiu.

Saí do evento com algum otimismo. E pensando sobre o nosso modelo atual de desenvolvimento, na participação das empresas em nossas vidas. Lembrei-me de Joel Bakan e seu “New Corporation” (ainda sem tradução no Brasil), sobre o qual já falei aqui neste espaço.

Bakan, jornalista e especialista em decifrar os códigos de nossa atual civilização, faz no livro uma forte crítica à privatização de serviços que são fundamentais para a vida humana.

“Uma vez privatizados, os serviços de água, como todos os outros, viram commodities que devem ser vendidas e compradas. Muito mais isto do que um direito dos humanos”, escreve ele.

Para criar um ambiente onde as empresas sejam cobradas a tratar tais serviços com a urgência que eles exigem, é preciso garantir que elas sejam reguladas, diz Bakan.

“Empresas são produtos de regulação. Elas não foram criadas pela mão invisível do mercado, ou por uma entidade sobrenatural. Elas são uma criação do Estado, de leis que garantem sua existência”, completa o autor.

Escrevo este texto, como podem perceber, a um só tempo embalada por um irresistível sentimento de esperança, e sem abandonar meu eterno senso crítico. Não se trata de escolher entre “isto” ou “aquilo”, mas sim de compor ideias, em prol do bem-estar dos habitantes.  São ingredientes fundamentais para ampliar pensamento.

Sobre ameliagonzalez848

Produtora de conteúdo. Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho, um cachorro.
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