No tempo da delicadeza

A manhã transcorria pertencida daquela falsa normalidade que nos deixa com a alma aquietada.

Escolhi a ladeia para me afastar do burburinho. A foto é de Amelia Gonzalez

Não tinha caminhado nem cinco minutos, porém, quando ouvi um latido forte de cachorro angustiado, nervoso. Sou intensamente afetada por cães. Sinto a angústia deles na voz, e isto já me tirou da falsa normalidade.

“A manhã começou tensa”, pensei.

Na sequência, vejo o rapaz sair com o carrinho de sua bebê, que chamava pela mãe. Pouco atrás, a mãe, de sandálias de dedo, uma jovem bem bonita que vi grávida, equilibrava nas duas mãos suas duas vira-latas. Uma delas, a de latido angustiado.

Seguiram em frente. Estamos acostumados a nos desejar bom dia, mas achei que não seria de bom tom, naquele momento. Quando a tensão ronda a gente, fica chato ver alguém com ares de monge do Himalaia.

Bom dia? Como assim? Quais são suas fontes? Quem te garante?

Fui arrastando Beto, meu cão, que já estava prestes a arrumar treta com a vira-lata angustiada. Nem pensar, amigo. Não é hora disso.

Na esquina seguinte, alguém falava ao telefone celular. Àquela hora da manhã, já num tom de voz acima, explicava-se pelo atraso.

Eram 7h30m!

Fiquei nostálgica. Como era bom o tempo em que a gente saía pelas ruas sem ser monitorado, vigiado, seguido, por um dispositivo. Se chegasse atrasado, a situação se resolvia no instante da chegada.

Naquele tempo a gente ouvia, falava, ouvia. E fazia hiato entre um e outro momento.

Preferi o caminho da ladeira para me afastar um pouco do burburinho. Busquei ouvir o som dos pássaros, focar meu olhar nas árvores que formam um lindo rizoma lá no alto da pedra. Mas se engana quem pensa que só tem serenidade na natureza. É preciso lidar com o tempo da tensão, intercalar com a calmaria.

              “Os morros se andorinham longemente…

                Eu me horizonto”

                                         Manoel de Barros

Busco fazer conexão com a minha respiração. O ar entra pelo nariz, enche a barriga e sai pela boca. Uma, duas, três vezes… e o corpo vai se tornando pleno de uma certa tranquilidade.

Passo por um vizinho que procurou bater papo, e aceito. Jogar conversa fora, falar sobre o instante, pode ser bom para desestressar. Mas ele foi além. E me lembrou da viagem da presidente da Câmara estadunidense Nancy Pelosi – a segunda no comando da nação mais rica do planeta – a Taiwan, pura provocação à China. Como se nos Estados Unidos tudo estivesse muito bem resolvido, ah, então vamos cuidar de ampliar nossa capacidade de ter dispositivos eletrônicos (para quem não sabe, pesquise, foi esta a razão da viagem). Mais dinheiro gasto com armas do que com educação! Mais dinheiro com tecnologia do que para dar bem-estar à população!

Pronto, o efeito esponja de novo. A tal lucidez me perseguindo, como se eu não tivesse um momento que fosse próprio meu, a conversar com plantas, pedras, pássaros.

            “A voz de um passarinho me recita”

                                             Manoel de Barros

O mundo pertencido a líderes que só enxergam uma forma de vida: aquela que possui dinheiro, coisas, tecnologia. Mais, mais e mais.

O valor da vida fica em outro lugar, e nem consigo imaginar… na cabeça de um líder que investe dinheiro e paga equipe, drones, armas, para matar um único homem, chamado de “o terrorista mais procurado”. E depois vai à televisão para se vangloriar disso… não consigo imaginar o valor da vida para uma pessoa dessas.

A conversa com o vizinho, como vocês podem imaginar, não prosperou muito. Segui meu caminho, buscando na pedra, nas árvores, no canto de cada passarinho, meu desejo de me acalmar.

Na volta para casa ouvi um filho pequeno brigando com a mãe, que tentava fazê-lo abandonar a televisão para ir à escola. Ele gritava, ela gritava.

Tantas vezes vivi a mesma cena! Deu vontade de dizer a ela: “Educar é a arte do impossível, querida. Mas no fim, dá certo”.

Meu filho hoje tem 40 anos. E é um ser. Um ser sensível. Não sei se ajudei ou atrapalhei. Mas dei-lhe a vida. E ele respeita cada momento desse regalo.

Voltei para casa e recebi a notícia de uma amiga, dizendo-me que sua mãe partira. Eu acompanhei os momentos de extrema delicadeza que envolveram a despedida. É triste, é um luto, é a finitude se impondo. Mas foi gentil, foi carinhoso. Não pude abraçar a amiga. A distância se impôs.

 Senti uma tremenda vontade de ver o mar. Consultei minha agenda, o compromisso de entregar um texto, calculei o tempo e decidi ir.

Por sorte o ônibus chegou logo. Por sorte a maré estava baixa. E pude andar rápido na areia dura, molhando os pés no mar. Delícia.

Teve que ser rápido, mas como foi bom.

Na volta, peguei um táxi para agilizar.

Abri a janela, deixei o ar invernal refrescar meu rosto.

Foi quando percebi, num som baixinho, o Claudio Nucci cantando “Quem tem a viola”. Tão baixinho que precisei me aproximar um pouco do rádio para ouvir. E a música me levou embora, final dos anos 70, esperança no ar, os tempos de chumbo, da ditadura torturando amigos, tinha que acabar.

E me peguei dedilhando ao som do “Tem tom de roupa quando seca no varal”…

Até que percebi o movimento do motorista. Devagar, como se não quisesse perturbar meu enlevo, ele tocou no rádio e aumentou um grauzinho o som, coisa de nada.

Ficou mais confortável para eu ouvir.

Um gesto delicado, só isso. E, no meio daquele turbilhão que fora o início da manhã, aquele gesto me emocionou.

Estava mesmo precisando carregar minha bateria com a delicadeza que aquele desconhecido me ofereceu.

Sobre ameliagonzalez848

Produtora de conteúdo. Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho, um cachorro.
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