Moradores de Laranjeiras se unem contra mais uma megaobra que vai causar forte impacto no bairro

Mais um empreendimento imobiliário de mega porte numa rua já tão congestionada como a Rua das Laranjeiras, Zona Sul do Rio de Janeiro, está deixando inquietos os moradores. É o local onde os empreendedores imobiliários pretendem erguer seis prédios em um terreno de 50 mil metros quadrados que hoje abriga o Palacete Modesto Leal, construído entre 1904 e 1905.

 Como o palacete é tombado pela Prefeitura, ele vai ser preservado. Já não se pode dizer o mesmo com relação às árvores de seu entorno, um trecho bonito, um oásis em meio à barulheira asfáltiva do local. Um projeto de lei do Deputado Carlos Minc (PSB), que atende aos pedidos das associações de moradores de Laranjeiras (Amal) e da Rua Alice (Amaralice), se aprovado, prevê tombar o terreno todo, não só o prédio.

No sábado passado (13), os moradores fizeram um ato para angariar assinaturas e chamar atenção das autoridades. Carlos Minc esteve lá e contou mais uma triste novidade sobre o condomínio que as empresas querem erguer ali:

“Ficamos sabendo que no projeto consta uma garagem subterrânea e que isto não vai levar em conta o impacto que poderá causar no Rio Carioca, que passa por ali debaixo da terra. Ou seja: isto faz parte de uma luta mais ampla, pela preservação do verde, contra as inundações. Porque as árvores não são apenas importantes porque trazem sombra e abrigam pássaros, elas também seguram a água das chuvas. Ou seja: quem desmatar essas árvores e causar impacto no Rio Carioca está cometendo um crime ambiental”, disse o deputado.

No ato da manhã ensolarada de sábado, faixas estendidas pelos moradores pediam o fim da especulação imobiliária.

É a chave para reflexões.

Segundo a ONU Habitat, em 2050 seremos 68% da população mundial morando em cidades.

“As cidades são desiguais porque são lugares muito agradáveis ​​para ser rico e são lugares menos intoleráveis ​​para ser pobre”, escreve Edward Glaeser, economista de Harvard e renomado urbanista, autor de “Os Centros Urbanos – A maior invenção da humanidade” (Ed. Campus, 2011).

Ao mesmo tempo, como lembra a também urbanista Raquel Rolnik em seu recém-lançado “Guerra dos Lugares” (Ed. Boitempo), estamos em meio a um longo processo de desconstrução da habitação como um bem social “e de sua transmutação em mercadoria e ativo financeiro”.

O cenário, portanto, une a sanha imobiliária ao crescente número de pessoas que precisam de moradia e à também crescente miséria – o Censo de 2022 dá conta de que existem quase 185 mil pessoas morando nas ruas em todo o país. Não sobra muito espaço para achar bom morar em megalópoles, sobretudo porque há também a questão ambiental, como bem pontua Minc no caso da chácara que vai ser impactada.

Tem solução?

Criar outros espaços pode ser uma solução. Pensar em moradias mais compactas, operacionais. Que se possa privilegiar os espaços verdes deixando-os para todos, nas cidades, do que transformá-los em meros jardins que servirão apenas como enfeite a poucos.

 É uma visão diferente, mais realista, que considere o espaço urbano como um território verdadeiramente para todos. Como diz Glaeser em seu livro, as grandes cidades exercem uma forte atração sobre os humanos. É neste espaço que se consegue criar. Precisamos uns dos outros para trocar impressões, aprender, ensinar. Somos gregários.

Mas é preciso que se tenha uma visão de cidades inclusivas, com transporte público eficiente, rede de esgoto, escolas e hospitais espalhados por toda parte. É engraçado, por exemplo, ver o anúncio de que haverá uma garagem enorme no novo condomínio em Laranjeiras, talvez com lugar para dois carros para cada morador.

Alguém pensa no impacto que vai ser na malha urbana quando tantos carros saírem de sua luxuosa garagem e se tornarem apenas mais um veículo a entupir as ruas?

 Tenho a forte impressão de que o tema não é ainda prioritário, nem mesmo para os candidatos que começam agora a apresentar suas propostas.

É sempre bom, portanto, ver a sociedade civil se mobilizando neste sentido, porque pode ser um bom começo.

Sobre ameliagonzalez848

Produtora de conteúdo. Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho, um cachorro.
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2 respostas para Moradores de Laranjeiras se unem contra mais uma megaobra que vai causar forte impacto no bairro

  1. Edgar Fernando Trierweilet Filho disse:

    Não podemos deixar isto acontecer. Temos que preservar o que ainda nos resta.

  2. Lilian Ostrower disse:

    Como moradora das Laranjeiras, sou contra a construção de um condomínio e defendo que essa área seja preservada, mas tem que haver um compromisso do município para que o tombamento não caia em um processo de abandono e as matas sejam invadidas por uma comunidade que já avança no local.

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