Sobre natureza e política

Morreu Bruno Latour. A amiga Luciana Medeiros perguntou-me, logo cedo pelo WhatsApp, se eu o conhecia. Busquei na estante o livro “A política da natureza”, escrito por ele em 2004, que chegou ao Brasil, editado pela Unesp, em 2019.  Reli alguns pedaços e, à medida que o dia foi passando, fui me aproximando novamente do pensamento do antropólogo francês, conhecido  como o filósofo da ecologia política. Latour ofereceu ao mundo, enquanto esteve por aqui, chances inauditas de reflexão sobre nosso modelo de bem viver, inclusive durante o isolamento provocado pela pandemia da Covid19:

“Estamos dentro da terra, não em um espaço infinito. É algo que sabíamos, mas havíamos esquecido”, disse ele em entrevista.

Não se sabe ainda o motivo da morte de Latour.

Estranhamente, ao mesmo tempo que, enquanto fazia as tarefas cotidianas, a memória do que eu havia lido sobre Latour ia se ampliando, outro pensador passou a me rodear: Baruch Spinoza. O filósofo holandês escreveu um tratado sobre a Ética, no século XVII. Ainda tão atual.

Spinoza foi anatemizado pela forma como compreendia Deus: “Compreendo um ente absolutamente infinito, isto é, uma substância que consiste de infinitos atributos, cada um dos quais exprime uma essência eterna e infinita”.

Vou ousar resumir: para Spinoza, Deus “é” todas as coisas. Não “está” em todas as coisas. A natureza, portanto, é Deus. Os seres, que agora conhecemos como biodiversidade, todos, são Deus. E isto muda muita coisa. Porque nos empodera, nos põe num lugar responsável. Ética, para Spinoza, é relação com todo o nosso entorno.

Talvez por ser domingo, por estar chovendo, talvez por estarmos vivendo um período extremamente delicado, sensível, da política, fixei-me numa frase inicial de “Políticas da natureza”, o qual recomendo a leitura. Diz Latour: “Não existe, de um lado, a política e, de outro, a natureza”. É, portanto, uma questão de relação. Ou, como queria Spinoza, de ética.

Nos últimos quatro anos, sabemos bem que este princípio não foi, nem de perto, preservado pelos ocupantes do poder em Brasília.  O saque à natureza foi de tal maneira que até mesmo as Unidades de Conservação têm tido sua vegetação alterada, segundo estudo feito pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), publicado hoje no G1. Sob o leite derramado, não se chora. Sendo assim, vamos adiante.

Fiquei satisfeita quando li, no programa de governo do ex-presidente Lula, a menção a “produzir e consumir de forma sustentável e mudar o padrão de produção e consumo de energia no país, participando do esforço mundial para combater a crise climática”. Fiquei satisfeita também quando a senadora Tebet, agronegocista que está apoiando a candidatura Lula, chamou de “tese equivocada” , aquela que diz que agronegócio e meio ambiente são opostos. Tebet afirma: “sem chuva não há safras”. Portanto, há prejuízo.

Estamos falando sobre política, meio ambiente e economia, tudo num pacote só. Se não for retórica inútil – perdão a todos, mas temos o direito de desconfiar – o momento pode estar corroborando o pensamento de Latour:

“Agora que os movimentos ecológicos nos anunciam a irrupção da natureza na política, será necessário imaginar, o mais das vezes com eles e algumas vezes contra eles, o que poderia ser uma política enfim livre desta espada de Dâmocles: a natureza”, escreveu ele.

Termino querendo agregar com o pensamento de outro ecologista, o Papa Francisco. Em sua Encíclica, publicada em 2015, chamada “Laudato Si”, ele faz uma rigorosa visita às questões climáticas e da natureza. E lembra, no primeiro capítulo, a fraqueza da reação política internacional  para assegurar a proteção dos ecossistemas.

 Papa Francisco explicita a necessidade de “construir lideranças que apontem caminhos” , garante que “não existe só um caminho de solução”.  E adverte sobre o equívoco de se pensar a biodiversidade como um “reservatório de recursos economômicos que poderia ser explorado”.

O valor real das coisas é que precisa ser considerado, diz o Papa. Estamos neste momento.

Precisamos voltar a dar valor ao ser, ao outro, àquilo que podemos fazer, no coletivo, contra o mal maior. Quer este mal esteja personificado num político anti-democrático, quer nos eventos extremos causados por danos à natureza. É nossa responsabilidade também.

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Sobre ameliagonzalez848

Produtora de conteúdo. Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho, um cachorro.
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