Crônica da diversidade

image1Tem gato que se chama Mio.

Tem cachorra que se chama Mia.

Tem o Beto cachorro, tem o Beto que zela pelo prédio. Tem também a Maria, cachorrinha velhinha e bem pimpona, respeitada até pelos dois irmãos caninos do segundo andar, lindos, a turma do barulho. 

Ah! E tem também o Che, passarinho danado de abusado que não quer saber do perigo. Vem aqui na minha janela beber água e deixa Mio e Zuda, do muro ao lado, com os olhos estatelados, lambendo os beiços. Mas Che é esperto, voa rápido que só ele. E só bebe água fresca. Se eu me esqueço de trocar, ele vai beber na vizinhança.

Tem palhaço! E tem palhaçada no corredor, a sério. O Café Pequeno, na verdade o ator Richard Riguetti, que vive de fazer arte para muita gente na rua e nos palcos, criou assim seu jeito de enfrentar a pandemia, esta mesma que obrigou todo mundo a ficar isolado. E a manter distância. Não se junta mais gente. Cadê a arte de rua? A foto do post é de uma apresentação, foi clicada por Juliana Garçon.

As crianças do prédio adoraram a palhaçada.

Tem gente que escreve, gente que lê e escreve, gente que cuida de gente! Isto tem mais de um. Tem jornalistas, assim mesmo, no plural.

E músicos, também tem! À tarde, é só esperar para ouvir o clarinete, o oboé…

Tem gente que faz cristais da boa energia e sai pendurando, dando para quem mais gosta. Tem vitrais que mais parecem com igreja, lindos.

É assim o prédio onde eu moro.

Pequenino, fica no fim da rua tranquila. Quando veio a ordem de ficar todo mundo em casa, foi um tal de um ajudar o outro, fazer compras, emprestar coisas. Manteiga, livro, açúcar, dendê… já rolou de tudo. 

 Quem sai, como eu, fica no quarteirão. É só para respirar e andar com a cachorrada. Ou pegar um solzinho com as crianças.

Mas não estou dizendo que vivemos em total harmonia. Até porque, como já estamos cansados de saber, essa tal de harmonia é só para inglês ver, para vender margarina aos que acreditam que a paz mundial tem uma receita única. Ou para fazer falsas promessas, que delas já estamos cheios.

Ser humano é diverso, cada um é um. Somos todos, como diria Friedrick Nietzsche, filósofo e poeta,  humanos, demasiado humanos. Portanto…já rolou discussão, muxoxo, um vira a cara para o outro, o outro vira a cara para o um.

Se tem muito barulho no prédio, nossa! Eu mesma viro bicho. Se aparece barata, ah… o Beto que zela pelo território vai ouvir…

Hoje acordei pensando nisto, hoje acordei acreditando na diversidade. A natureza é diversa, toda gente é diversa. Respeitar o poder da diversidade é uma das chaves que pode abrir as portas para uma civilização diferente. 

 Peguei da estante “Morte e vida das grandes cidades”,  de Jane Jacobs, lançado aqui pela editora Martins Fontes. Um livro gostoso de ler, com tanta informação que é impossível não identificar, nos pés e nas patas do meu prédio, o balé urbano sobre o qual ela fala. Um livro que quero sugerir aos leitores – sobretudo aos que estão estudando urbanismo –  porque estamos num momento de perceber, de abrir os olhos, de ficarmos atentos a tudo. Estamos num momento de acreditar que é possível mudar, que não podemos nos agarrar a uma fajuta “volta à normalidade”. Não depois de tudo que estamos vivendo. 

Jane foi uma super ativista social canadense, morreu em 2006 aos 90 anos. “Morte e vida das grandes cidades” foi seu grande gol, lançado nos Estados Unidos em 1961, que chegou aqui só no início deste século. O tema central é Nova York, cidade onde Jane viveu. Jane usa uma linguagem bem atraente, conta histórias a partir de sua própria vivência. E é deste jeito que vai construindo uma narrativa de oposição ao estilo higienizado e asséptico criado pelos arquitetos dos Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna (Ciam). O Ciam foi uma instituição lançada na Europa nos anos 20, depois da I Guerra, para defender e difundir um ideário de arquitetura e do urbanismo modernos. Na verdade, para recuperar grande parte das cidades que foram derrubadas com os bombardeios.

Quando Jane lançou o livro, Brasília estava sendo construída exatamente sob os moldes de Le Corbusier, arquiteto que escreveu “Carta de Atenas”, livro do qual também gosto muito. Le Corbusier foi membro dos Ciam.  Na verdade, fico bem em cima do muro, entre um e outro plano de urbanismo. E decido gostar dos dois. 

Para Jane, cidade tem que ser diversa, pobre misturado com rico, rico misturado com remediado, todo mundo experimentando a vida. E assim vai se ajeitando. Não adianta impor um padrão, porque nós, humanos, não somos padronizados.

Le Corbusier constrói cidades que se adaptariam melhor à pandemia. Para ele, é preciso ter espaço entre as casas, é preciso que as ruas sejam setorizadas: comércio com comércio, banco com banco, empresa com empresa, residências com residências. Organiza mais. Por outro lado, tira a riqueza da diversidade.  

Fiquei enfeitiçada pelo texto de Jane. Uma frase, em especial, chamou minha atenção e está me ajudando a alinhavar meu pensamento: 

“Há um aspecto ainda mais vil que a feiura ou a desordem patentes, que é a máscara ignóbil da pretensa ordem, estabelecida por meio do menosprezo ou da supressão da ordem verdadeira que luta para existir e ser atendida”.

Estamos vivendo um momento especial no mundo, no  Brasil. Ainda mais no Rio de Janeiro. O professor e escritor Luiz Marques descreve assim no artigo que escreveu para o site da Unicamp, onde leciona:

“A atual pandemia intervém num momento em que três crises estruturais na relação entre as sociedades hegemônicas contemporâneas e o sistema Terra se reforçam reciprocamente, convergindo em direção a uma regressão econômica global, ainda que com eventuais surtos conjunturais de recuperação. Essas três crises são, como reiterado pela ciência, a emergência climática, a aniquilação em curso da biodiversidade e o adoecimento coletivo dos organismos, intoxicados pela indústria química”.

Ou seja: é um momento danado de ruim para se ter uma crise de saúde. 

Mas, já que não há outro jeito, o meu desejo é que a gente consiga sair dela com valores diferentes. Nem melhores, nem piores, mas diferentes. Para que isto aconteça, precisamos conhecer mais, descobrir autores que nos possibilitem reflexões. Eis a minha contribuição de hoje.

 

Sobre ameliagonzalez848

Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho e dois cachorros
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