Quem sabe faz a hora

yunus vale essa-novo

Tirei esta foto quando assisti a palestra de Yunus no Rio em 2013

Acredito que o acaso é um produto de forças, de cruzamentos acidentais. É assim que venho sentindo, em meu dia a dia que hoje se mostra às vezes mais monótono, feito de uma nota só.

As lives se tornaram o diamante que risca a pedra e dá a luz necessária para a sobrevivência do pensamento criativo. Longe do convívio pele a pele, perto daquilo que as pessoas têm para compartilhar, o conhecimento. E eu, na minha legítima função de espalhar informações, vou me municiando também. E vou me enriquecendo assim.

Hoje pela manhã, uma das primeiras de uma infinidade de mensagens que recebi pelas redes falava sobre os Despatronados, uma Cooperativa de entregadores(as) que decidiram se organizar numa alternativa de trabalho que consideram mais justa. Foi a oportunidade no risco. Isolados por conta do vírus, muitos de nós lançamos mão do serviço de quem se arrisca e vai para as ruas. Num país pobre como o nosso, em que o governo atual não atua na parceria, essas pessoas resolveram romper o código perverso de quem os emprega a troco de migalhas. E parece que está dando certo.

Ontem à noite, assisti no programa Papo com Favela (instagram), do jornalista Andre Balocco, a entrevista com Jessé Andrilho, da Favela de Antares. É um escritor que também conseguiu, obviamente depois de muito persistir e de encontrar parceiros certos, vencer o muro de exclusão que a cultura impõe a quem mora em comunidades. Lançou um, outro e outro livro, já foi chamado para auxiliar como roteirista e se sente, assim, incluído. Mas não largou a retórica e o sentimento de quem sempre foi posto à margem.

Eu precisava de uma linha que conseguisse unir estas peças que já formavam um mosaico na minha cabeça. E, como disse lá em cima, não por acaso, atendi o convite de Rita Afonso para assistir a uma live chamada “Tecnologias do Comum: Tendências da Inovação Social” (. sobre Inovação Social.

Rita é fonte das antigas, daquelas que se transformam em amizade, e os jornalistas que me leem sabem bem o que é isto. Professora da UFRJ na Faculdade de Administração e pesquisadora associada do Laboratório de Tecnologia, Diálogos e Sítios e outros. Eu a conheço desde o início do século, quando a entrevistei para o caderno Razão Social, que editei no O Globo durante nove anos. Rita é uma pessoa que me ajuda a espalhar notícias que têm a ver com o que acredito.

Se você, caro leitor que me prestigia, percebeu que seu “mesmiçômetro” foi às alturas quando ouviu a expressão Inovação Social, saiba que não está sozinho. Eu também faço críticas, sobretudo à quantidade de siglas e sínteses deste pensamento, a um engessamento na hora de captar dinheiro para os projetos. Quantos passos os Despatronados teriam que dar para pôr no ar e fazer andar sua criação se tivessem que impor o programa a uma banca de especialistas?

De outro modo, dentro do esquema que vivemos e que ainda não conseguimos transformar, a Inovação Social tem a vantagem de ajudar. Talvez num universo muito menor do que seria necessário, mas é positivo. Sobretudo quando se fala em relações, na verdade, em novos padrões relacionais.

Gostei muito quando Rita Afonso falou, do jeito claro e cristalino que a caracteriza (ela virou minha fonte, né?), que quando se fala em Inovação Social não se está falando só em APPs. Lavou minha alma esta informação.

“Estamos falando de novos padrões relacionais. De caminhos para soluções da vida cotidiana, das comunidades. São instáveis e se espalham por contágio”.

Mais do que tudo, Rita conseguiu dizer a frase que fez meu “mesmiçômetro” se acalmar: “Não precisa de escala”.

Sim, os programas de Inovação Social podem se adensar, podem fazer diferença. Querem um exemplo? O Papo Reto, no Morro do Alemão, surgiu da ideia de Raul Santiago que pensou em traçar um caminho para os moradores da comunidade poderem entrar e sair da favela com segurança.

Gostei tanto que continuei na live. E ouvi Cindy Lessa, uma das primeiras diretoras da Ashoka Brasil. A Ashoka é  considerada a quinta ONG de maior impacto social do mundo, e também conheci enquanto editora do Razão Social.

Cindy me trouxe a memória de Muhammad Yunus, fui correndo à estante e achei o livro “O Banqueiro dos Pobres” (Ed. Ática). Está bem velhinho, foi escrito em 1997 e conta a experiência de Yunus, que começou em 1976, quando ele decidiu emprestar 27 dólares a uma comunidade de 42 pessoas no seu país, Bangladesh, que atravessa a pior crise de fome de toda a história. Hoje ele tem uma instituição privada auto-sustentável, o Grameen Bank, com 2185 agências. Já emprestou o equivalente a 5,72 bilhões de dólares para 6,61 milhões de mutuários, 97% dos quais são mulheres.

Mas Bangladesh continua a ser um país pobre, muito pobre. Está em 142º lugar no último ranking de desenvolvimento humano feito pelo Pnud. Isto é só uma informação? Sim. E serve para alimentar minhas caraminholas matinais que compartilho aqui com vocês.

Uma das questões levantadas na live da UFRJ foi o empobrecimento de uma sociedade quando ela se baseia no individualismo. E eu me pergunto se não é exatamente esta grande “escala do humanismo” que tem estragado tudo. O que é a pobreza de Bangladesh? Como estará hoje aquela comunidade de Jobra, onde Yunus começou sua empreitada? Não será por aí, focando no desenvolvimento de cada cidadão, de cada bairro, que se vai conseguir enfrentar o mundo com ou sem pandemia?

 

 

Sobre ameliagonzalez848

Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho e dois cachorros
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