Dalai Lama e Papa Francisco fazem apelo que o Brasil não poderá atender

Em 2015, o mundo se surpreendeu com a Encíclica do Papa Francisco, chamada “Laudato Si – Sobre o cuidado da Casa Comum”.  O Sumo Pontífice decidiu escrever sua carta aos fiéis tendo em vista a “deterioração global do ambiente”. Convocou-os a “unir toda a família humana na busca de um desenvolvimento sustentável”, afirmou que estamos vivendo uma era de mudanças climáticas que “desnudam a terra das suas florestas naturais”. E atestou, também, aquilo que alguns líderes negam: os humanos estão contribuindo para a mudança climática. Naquele ano, os líderes mundiais, reunidos em Paris, assinaram o Acordo que se propõe a baixar as emissões a ponto de não permitir que o aquecimento global fique acima de 1.5º até o fim do século.

Foi um bom momento para a causa ambiental. Considerando que o Papa Francisco é um líder que fala para cerca de 1,3 bilhão de fieis, muita gente parou para pensar a respeito.

Cinco anos depois, outro líder religioso lançou uma mensagem que se assemelha à do Papa Francisco. Dalai Lama, o líder espiritual do Tibete, região com cerca de três milhões de pessoas, escreveu “A Nossa Única Casa – Um apelo ao mundo pela necessidade urgente de cuidarmos da Terra”, lançado no Brasil pela Editora Leya. O livro é feito em parceria com Franz Alt, cientista político que já trabalhou como jornalista e se especializou em ecologia e preservação ambiental.

Além de reproduzir uma conversa, em que Franz Alt faz perguntas ao Dalai Lama, o livro registra também os pensamentos do líder religioso sobre meio ambiente e mudanças climáticas. Assim como o Papa Francisco, ele exorta todos a construir “um ambiente mais saudável”.  E diz que “a ecologia deve se tornar a economia mais inteligente. Só então seremos capazes de viver de forma sustentável”.

“Já nos descrevi como egoístas, é verdade. Mas devemos ser egoístas sábios, em vez de egoístas tolos. Pensar menos em “eu” e mais no bem-estar dos outros. Assim se obtém o benefício máximo. Então isso é o egoísmo sábio”.

 Não custa trazer aqui os pensamentos de pessoas célebres que têm sensibilidade, responsabilidade, são bem-informados e acreditam na Ciência. Às vezes é preciso ir beber nessas fontes, sobretudo quando estamos vivendo uma espécie de realidade paralela aqui no Brasil, um governo que não leva em consideração essas verdades.

Agora que já nos banhamos em águas sábias e tranquilas, portanto, precisamos enfrentar a nossa dura realidade. A Câmara dos Deputados aprovou, no último dia 12, o texto substitutivo do projeto de lei 3.729/2004, que flexibiliza o processo de licenciamento ambiental. A proposta está sendo chamada de “tratorada” pelos ambientalistas, uma alusão à boiada que o ministro Salles, do meio ambiente, prometeu deixar passar.

Flexibilizar o processo de licenciamento ambiental é permitir mais obras e desmatamentos, é não respeitar a necessidade de baixar emissões de gases do efeito estufa. É não fazer nada daquilo que o país prometeu fazer na última reunião de cúpula, há três semanas, convocada pelo presidente Biden, dos Estados Unidos. Tudo isso, para se dizer o mínimo.

O projeto de lei libera ainda uma inusitada forma de auto licenciamento. Funciona mais ou menos assim: a empresa entra no computador, vai ao site e diz ao governo brasileiro que sua obra não vai causar impacto algum ao meio ambiente. Não vai sujar rio, não vai matar as árvores, não vai poluir o ar, não vai deslocar famílias. Vai, só, ajudar a desenvolver o país. E estará, assim, permitida. É como se dissessem: “empresário, venha, faça o que quiser, porque o Brasil precisa de você”.

Listo aqui apenas três pontos que demonstram quão distante estaremos, a partir de agora, da tão necessária mudança de paradigma que Papa Francisco exorta em sua Encíclica e que o Dalai Lama sugere em seu livro que faz apelo ao mundo para cuidarmos da Terra. Não será possível obedecer a um e a outro, já que privilegiaremos o lucro, o desenvolvimento, a qualquer custo. Eu disse, qualquer custo.

1 – Estamos no meio da maior crise sanitária do século. Estudos foram feitos e já constataram que o desmatamento pode contribuir para novas pandemias, por um motivo bem simples: quando se mata árvores o solo é mexido, remexido. Segundo a ONU, as florestas são o lar de mais de 80% de todas as espécies terrestres de animais, plantas e insetos. Assim como, de 1,6 bilhão de pessoas que dependem das florestas para viver. Quando o trator derruba árvores, lá se vão arbustos “e os animais selvagens que levaram milhares de anos para criar esse ecossistema”, como diz Soledad Barruti no artigo “Nuggets e morcegos, como cozinhamos as pandemias”. Flexibilizar a legislação ambiental significa abrir caminho para mais e mais desmatamento.

2 – Ao flexibilizar a legislação ambiental, o Brasil não está dando nem um passo para mudar paradigma em prol de um novo modelo civilizatório, como é preconizado por dez entre dez estudiosos dos efeitos da pandemia e do modus vivendi pós-pandêmico.  É preciso sair do padrão econômico para o padrão ecológico, como demonstram os analistas da nossa era. “O contrato social no qual se baseia a governabilidade de nossa sociedade deve ser complementado por um contrato natural”, disse o filósofo e acadêmico francês  Michel Serres.

3 – Há, no Brasil, segundo o censo do IBGE de 2010, 818 mil indígenas, de 305 etnias diferentes. É bom lembrar que essas pessoas já estavam aqui no país quando chegaram os portugueses, o que lhes dá o direito de ter terras delimitadas. Hoje há 632 desses locais, muitos deles em solos ricos, o que atrai grileiros. Ontem mesmo vimos o que aconteceu com os Yanomami, um dos maiores povos indígenas da América do Sul, vítimas do ataque de grileiros. Ficamos sabendo. Mas, imaginem quantos outros eventos como este podem acontecer, agora que a lei está mais flexível e permite, até incentiva, empreendimentos até em terras indígenas?

Encerro aqui este texto, sem qualquer conclusão possível. São palavras e informações que vão contribuir para refletirmos. E que nos alimentem.

Sobre ameliagonzalez848

Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho e dois cachorros
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