Lições sobre como combater a fome de um povo*

Corria o ano de 1993 e o Brasil ainda vivia a sua primeira infância como sociedade democrática. Na presidência, Itamar Franco, vice que inaugurou a nefasta e estranha saga dos vices que assumem a cadeira principal, elencou como prioridade de seu governo a fome a miséria que grassavam no país. Éramos então 156 milhões de brasileiros, dos quais 32 milhões começavam e terminavam o dia sem terem se nutrido, nem com a quantidade de alimento necessária para se manter em pé. Resultado de políticas econômicas erradas, que consideraram muito mais o progresso (para quem?)  do que o bem estar das pessoas, essa situação vergonhosa começou a incomodar a sociedade civil.

Herbert de Souza, o Betinho, sociólogo . Foto do site da ONG Ação da Cidadania, que ele criou

Eram tempos profícuos. Amordaçada durante os vinte anos de regime militar, a sociedade civil se via, finalmente, capaz de falar, pensar, agir de acordo com tudo aquilo em que acreditava. Sobretudo, em prol dos desvalidos. Entre as pessoas que tinham voltado para casa depois de um exílio forçado, Betinho, o irmão do Henfil, já vinha se articulando e debatendo a questão da fome com o novo governo. Numa famosa reunião, em que o presidente Itamar dedicou seu tempo para ouvi-lo, junto com Dom Mauro Morelli, Betinho expôs o Mapa da Fome e desenhou seus planos para acabar com ela.

Nascia, assim, o Programa de Combate à Fome que, segundo seu idealizador, só teria sucesso se, além da ação do governo, contasse também com ampla mobilização da sociedade.  Na sequência, Betinho criou uma ONG,  Ação da Cidadania contra a Fome e a Miséria. E veiculou sua ideia aos quatro cantos do Brasil. “Quem tem fome, tem pressa” era a frase que mais se ouvia e que se tornou uma marca. Conseguiu a adesão de políticos, empresários, jornalistas, artistas, sim, a sociedade civil. E, no fim do primeiro ano de campanha, já existiam cerca de três mil comitês em funcionamento no país.

“O Ibope foi a campo pesquisar o fenômeno de adesão e registrou que 68% dos brasileiros tinham conhecimento da existência da campanha, notadamente através da televisão. Do total dos entrevistados, 32% declararam alguma forma de participação ou contribuição para a campanha e 11% afirmaram participar ou trabalhar em algum comitê. Isto significa dizer que, em dezembro de 1993, a Ação da Cidadania envolvia aproximadamente 2,8 milhões de brasileiros e brasileiras, todos mobilizados para contribuir com a doação de alimentos e roupas”, diz um trecho do livro “Ação da Cidadania – 25 anos”.

A rede de mobilização lançada por Betinho, mais as políticas públicas lançadas pelos governos sociais de 2002 a 2015, foram responsáveis por tirar o país do Mapa da Fome (da ONU) em 2014. Na época, houve muita comemoração. O Mapa da Fome é um instrumento criado no início do século XXI para mostrar para todos, de forma gráfica, os países que estão sendo atacados pela fome.

A boa notícia é que ainda não voltamos ao Mapa da Fome. A má notícia é que estamos prestes a voltar, embora longe das condições agudíssimas de países africanos como Iêmen ou Madagascar. Dados do IBGE publicados em setembro do ano passado mostraram avanço da fome no país, que atingia 5% da população brasileira em 2018, ante 3,6% em 2013, alcançando mais de dez milhões de pessoas.

Hoje este número cresceu: são 19 milhões de pessoas que têm fome no Brasil. Uma vergonha. Ou, como diria Betinho:

“A fome é exclusão. Da terra, da renda, do emprego, do salário, da educação, da economia, da vida e da cidadania. Quando uma pessoa chega a não ter o que comer, é porque tudo mais já lhe foi negado. É uma espécie de cerceamento moderno, ou de exílo. Exílio da terra.”

A ONG de Betinho continua ativa, e hoje, 27 anos depois daquele distante 1993, contabiliza 35 mil toneladas de alimentos arrecadados pelos mil comitês que se espalham pelos 26 estados mais DF. Quatro milhões de famílias foram atendidas, e seria muito bom que, hoje, a Ação da Cidadania estivesse em outro lugar, auxiliando de outro jeito, mas não. Ainda precisa lutar para acabar com a fome, a pobreza, a miséria, e para dar cidadania aos cidadãos brasileiros excluídos.

Acima de tudo, a Ação dá uma lição aos atuais governantes, pessoas sem nenhuma intimidade com o tema fome. Com a pandemia, o desemprego se alastrou e agravou o quadro da indigência no país. A modesta sugestão é que se ouça quem sabe fazer por ter  aprendido com o mestre de todos os mestres.

Há, sim, um desperdício enorme de alimentos no mundo, no Brasil. O último relatório da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), publicado em 2019, deu conta de que em apenas um ano o Brasil desperdiçou 26,3 milhões de toneladas de alimentos. Mas a maioria desses produtos se perde na produção, ou seja, desde o momento em que é colhido até chegar à ponta da cadeia. A FAO esclarece que o desperdício no final da cadeia alimentar está mais associado às nações desenvolvidas.

Portanto, não faz sentido, nem com uma visão pragmática, a sugestão do atual ocupante da pasta do Ministério da Economia, para que as pessoas de classe média dividam seus, digamos, excessos de alimentos, com os pobres. O que resolve na emergência, para combater a fome, é fazer campanhas de mobilização, é se juntar a organizações que estão empenhadas (como no caso da Ação), é convocar artistas, políticos, estudantes, donas de casa. E é, sobretudo, criar políticas públicas voltadas para o combate à fome. Não estou falando em auxílio emergencial apenas. Há vários programas que podem ser resgatados.

Todos os dados sobre a campanha de combate à fome eu tirei da publicação lançada em 2013 pela própria Ação da Cidadania. O site da ONG está atualizado e tem várias informações. Disponível para quem quiser ler e aprender. Não custa sugerir.

*Este texto foi publicado originalmente no site da Revista Entrenós e da Casa Monte Alegre

Sobre ameliagonzalez848

Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho e dois cachorros
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Uma resposta para Lições sobre como combater a fome de um povo*

  1. Ciro Torres disse:

    O legado do Betinho é realmente impressionante! Criou o Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase) em 1981. Criou a Associação Brasileira Interdisciplinar da Aids (Abia) em 1987; e a Ação da Cidadania Contra a Fome e Pela Vida em 1993, como lindamente retrato por esta jornalista na coluna! Parabéns Amélia Gonzalez!

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