Novo relatório da Oxfam denuncia falta de solidariedade dos países ricos com os pobres

Acaba de ser lançado um relatório da Oxfam dando conta de que os países ricos, maiores responsáveis pelos impactos ao meio ambiente que causam as mudanças climáticas, não estão doando dinheiro para os países pobres lidarem com os efeitos dos eventos extremos. Para cada US$ 2 necessários, os países doadores estão fornecendo apenas US$ 1. E hoje a quantidade de dinheiro necessária para cumprir a obrigação de salvar os países pobres é vinte vezes maior do que fora há vinte anos.

A fazendeira Sanfo Ramata em Burkina Faso, um dos países mais pobres do mundo. Foto de Gery Barbot/Oxfam

Para contextualizar o relatório “Footing the Bill”: em cada Conferência das Partes sobre o Clima (COP), os países ricos presentes são instados a ajudar os países pobres para que estes consigam construir uma infraestrutura que os ajude a enfrentar secas e tempestades. O princípio básico é que, como são mais industrializados, os países ricos são também os maiores responsáveis pelas emissões de carbono, em consequência, pelas alterações do clima.

Segundo o relatório, “Quênia, Somália, Sudão do Sul e Etiópia – onde mais de 24,4 milhões de pessoas agora enfrentam níveis severos de fome e insegurança alimentar – são responsáveis ​​por apenas 0,1% das atuais emissões globais”.  Pelo menos dois deles – Somália e Sudão do Sul – estão entre os países mais pobres do mundo.

Diretora executiva da Oxfam, Gabriela Bucher lembra que o alerta está sendo dado há tempos:

“Não se pode esperar que os países pobres paguem a conta, e aumentar a ajuda – embora seja uma atitude útil – não é a única resposta. Pagar o custo das perdas e danos causados ​​pelo clima deve ser baseado na responsabilidade – não na caridade. Países ricos, pessoas ricas e grandes corporações responsáveis ​​por causar as mudanças climáticas devem pagar pelos danos que estão causando”, disse ela.

O debate, como diz Bucher, está na mesa não é de hoje. Ocorre que os países ricos replicam. Para eles, não é obrigação ajudar os mais pobres, já que estes também se beneficiaram de sua industrialização. Se são mais “desenvolvidos” do que antes é porque o “progresso” dos mais ricos bate à sua porta.

Como todos sabem, não é de hoje que estudo e pesquiso a questão do desenvolvimento sustentável. Assim que recebi o conteúdo do relatório da Oxfam eu me lembrei da entrevista que fiz com a ex-primeira ministra da Noruega Gro Brundtland em 2007, quando ela esteve no Brasil. Gro Bundtland ajudou a criar o termo desenvolvimento sustentável.

Um dos temas abordados na entrevista foi, justamente, a ajuda que os países ricos deveriam dar aos mais pobres. Brundtland foi enfática ao dizer que estava na hora de rever esta postura. Para ela, alguns dos mais pobres já não eram tão pobres assim – e ela citou Índia, China e Brasil – o que os alçava à condição de poderem participar também da partilha.

“Nos anos 90 pensávamos que os deveres e as obrigações deveriam recair sobre os países desenvolvidos, já que eles é que produziam o problema. Agora, com o tempo, outras nações estão ficando mais industrializadas e elas estão aumentando o problema”, disse ela.

A ex-primeira ministra não se opunha à doação de dinheiro para os mais pobres. Mas questionava quem seria beneficiário. Ao mesmo tempo, à minha pergunta sobre se seria conciliável crescimento e desenvolvimento sustentável, ela também foi veemente em defesa da necessidade de se lançar mão das tecnologias para isso.

Ocorre que tecnologias custam caro. Quem pode pagar por elas?

Reproduzi aqui um pouco da conversa que tive com Gro Brundtland porque creio ser o cerne da questão que vai para a mesa de debates. Mas o relatório da Oxfam traz dados bem atuais, que consolidam um novo cenário:

“Os países ricos e industrializados contribuíram com cerca de 92% do excesso de emissões históricas e 37% das emissões atuais. As emissões atuais da África são de apenas 4%”.

Ou seja, diferentemente do que previra Brundtland há quinze anos, durante a entrevista que me concedeu, os ricos continuaram ricos e muito ativos, emitindo gases poluentes. Por conta disso, “o custo econômico de eventos climáticos extremos em 2021 foi estimado em US$ 329 bilhões globalmente, o terceiro ano mais alto já registrado. Isso é quase o dobro da ajuda total dada pelas nações ricas ao mundo em desenvolvimento naquele ano”.

Estamos num ano de efemérides nas questões ambientais. Acaba de acontecer a Estocolmo+50, Conferência que comemora o aniversário do primeiro encontro mundial para debater o meio ambiente. Ali já estava posto o imbróglio entre desenvolvimento e conservação ambiental. Ali já estava posto o impacto à saúde dos humanos que causa o excesso de CO2. No relatório final de 1972, compilado em livro chamado “Only One Earth”, no entanto, já estava claro também que os países ainda não levavam a sério os sinais que o meio ambiente já mandava: os bens naturais que podem ser usados pelos humanos para terem mais conforto são finitos.

E estão acabando.

Hora de os próprios líderes se levarem a sério. Vale registrar um dos dez princípios elencados pelo Relatório atual, da Conferência Global de Meio Ambiente que acabou no dia 3 de junho na capital sueca:

“Adotar uma mudança sistêmica na forma como nosso atual sistema econômico funciona para contribuir para um planeta saudável, por meio da definição e adoção de novas medidas de progresso e bem-estar humano, apoiadas por políticas econômicas e fiscais que considerem o valor do meio ambiente; investindo em infraestrutura, desenvolvendo políticas eficazes e incentivando um diálogo para promover o consumo e a produção sustentáveis; e promovendo a eliminação dos combustíveis fósseis, ao mesmo tempo em que fornece apoio direcionado aos mais pobres e mais vulneráveis, de acordo com circunstâncias nacionais e reconhecendo a necessidade de apoio financeiro e técnico.”

A torcida é para que esta não seja uma retórica inútil.

Sobre ameliagonzalez848

Produtora de conteúdo. Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho, um cachorro.
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