Curupira, protetor das florestas, olhai por nós!

A foto foi tirada por mim em 2015. Trata-se da Floresta Amazônica

“Depois então entra lá na minha página do Insta! Está bem, legal, você vai gostar”

“Vou entrar lá sim, valeu!”

O diálogo foi capturado por mim durante a caminhada matinal. Os personagens são desconhecidos, são dois homens. Mas o teor da conversa se tornou universal. Se alguém ouvisse isto há duas décadas, não iria entender nada. Hoje, porém, tenho certeza de que todos vocês que estão lendo este texto entenderam muito bem a mensagem.

No fim das contas, o que vai acontecer é o que acontece na grande maioria das vezes quando o dono da rede social não é um influencer ou não pagou para que sua publicação fosse impulsionada. O amigo vai se esquecer de “ir lá na página”. E o outro vai se frustrar, depois de algum tempo, com o baixo número de visitantes.

Nossa civilização, impulsionada por grandes corporações que lucram muito com a conectividade global, agregou mais um fator de frustração ao nosso rol,  que já não é pequeno.

Fui pensando nisto enquanto seguia meu caminho. Frustração é um sentimento que a gente conhece desde os primórdios. Começa porque o bebê quer que a mãe continue fazendo parte dele, como no útero. E segue vida afora. A maneira de lidar com as frustrações é que depende do nível de maturidade, de estresse, de bons ou maus momentos na vida de cada um.

Mas, certamente, as redes sociais conseguiram ativar este recheio. A conversa por WhatsApp se tornou um detonador de sentimentos de frustração aliados à desconstrução do hiato entre uma conversa e outra, condição indispensável para se manter um diálogo com ação, reação, escuta e fala. Pelo “zap”, se a pessoa demora um pouco para responder, fica caracterizado que ela não quer responder. E, dependendo da situação, o interlocutor pode se sentir desprezado.

Mas, o que me causa frustração?

Pensando a respeito, ouvi o barulho da motosserra. E estava ali, na minha frente, um dos motivos que hoje me deixam frustrada, indignada, com raiva.  Uma amendoeira gigante estava sendo suprimida.

Perguntei o motivo da morte da árvore a quem estava coordenando os trabalhos, e não me pareceram injustos. Tampouco incomuns. Ela estava com cupim e suas raízes estavam invadindo os canos das casas, o que poderia provocar um tremendo problema.

“Mas é claro que as raízes estão se alastrando. Quem mandou plantar uma amendoeira ali?”, perguntei, com raiva.

Não esperei pela resposta. Não sei se o interlocutor se frustrou, mas pouco se me dá, eu estava com raiva.

 A amendoeira estava dentro de uma casa antiga. Este tipo de árvore leva cerca de dez anos para estar madura, e vive até uns 50. Digamos que tenha sido plantada há uma década. Já tínhamos internet com alcance suficiente para fazer uma busca rápida e pensar duas vezes antes de plantar uma árvore desse tamanho no quintal.

O que mais me deixa indignada é que dificilmente outra será plantada no lugar. E a sombra de uma amendoeira, numa cidade como o Rio de Janeiro, que já virou uma ilha de calor, é quase uma dádiva do universo. Lá se foi, portanto, mais um regalo dos deuses.

Já em casa, enquanto compartilho com vocês, recebo a notícia de que o domingo, dia 17 de julho é considerado o Dia de Proteção às Florestas, uma efeméride nacional. Para comemorar, resgatam a imagem do Curupira, personagem do folclore brasileiro, famoso pelos cabelos vermelhos, pés virados para trás, que vive dentro de uma árvore, no meio da floresta. Ele é o protetor da natureza e anda sempre com uma lança para espetar aqueles que querem derrubar as árvores.*

Curupira, olhai por nós!

E acho que vou pedir sua lança emprestada…

*Informações obtidas na aula de Arte online do professor Rafael Mendes, de onde também retirei a arte que postei aqui.

  • Originalmente escrevi este texto para ser publicado no site da Casa Monte Alegre

Sobre ameliagonzalez848

Produtora de conteúdo. Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho, um cachorro.
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